Provedores de banda larga acirram disputa de mercado
Autor: André Borges
Data: 05/09/2003

Quando o tema é telecomunicações, a batalha pelo mercado das megacorporações, usuárias críticas de serviços de comunicação de dados em alta velocidade, promete novas emoções. Se de um lado abre-se um leque vasto de tecnologias para prover acessos e conexões – desde fio de cobre, passando por cabo, fibra óptica, satélite e ondas de rádio – de outro se remexem os provedores de soluções para atrair a atenção dos clientes. Nesta briga, os principais provocadores devem ser as grandes operadoras de telecomunicações, tradicionalmente conhecidas pela oferta de serviços de telefonia e acesso à internet voltados para o consumo de varejo e pequenas e médias empresas.

A Telefônica Empresas, inaugurada em 2001, foi uma das primeiras a enfrentar as operadoras focadas especificamente no segmento corporativo. Com uma carteira de clientes de 815 grupos empresariais, que totalizam 1,4 mil companhias, o braço da operadora faz questão de se distinguir das demais concorrentes do mercado de consumo final. “As principais operadoras têm suas atenções com o varejo, e isto representa uma certa distração quando se trata de outros mercados, porque a área corporativa não cai na lista de prioridades destas empresas”, afirma Carlos Augusto Ferreira, vice-presidente da Telefônica Empresas.

Mas não é este o discurso da Brasil Telecom, embora os serviços de banda larga representem apenas 3% de seus negócios, sendo que destes, somente 12% são pessoas jurídicas. A operadora, que possui 19% dos negócios da MetroRED, está investindo na oferta de redes virtuais privadas (VPN IP) com protocolo MPLS (Multi-Protocol Label Switching), tecnologia que aperfeiçoa a transmissão dos pacotes na infra-estrutura IP.

O serviço, batizado com o nome de Vetor, entrou em operação em fevereiro deste ano e já conta com projetos piloto nas áreas financeira e governamental. Segundo Waldir Morgado, diretor adjunto de produtos e serviços da Brasil Telecom, a tecnologia consegue ser até cinco vezes mais rápida que uma conexão normal, partindo de 256 Kbps até 155 Mbps. “Temos força de vendas em pequenas, médias e grandes empresas, não há um único foco”, diz o executivo.

Hoje, a Brasil Telecom conta com uma base instalada de 326 mil acessos ADSL (Asymetrical Digital Subscriber Line), tecnologia de banda larga predominantemente utilizada por pequenas e médias empresas. Até 2005, a empresa projeta alcançar 500 mil pontos de acesso, dos quais 90% devem ser baseados em ADSL. A GVT, por sua vez, não perdeu tempo e tratou de turbinar seu serviço de ADSL para atender a grandes companhias. A operadora, que está apostando suas fichas em VPN IP baseado na tecnologia, acredita na crescente convergência dos diversos tipos de serviços de banda larga.

Questionada sobre a falta de interesse dessas corporações em linhas ADSL, a gerente de planejamento de produtos e serviços corporativos da GVT, Cintia Giotto, exemplifica com um case do setor financeiro. “Atendemos uma rede de caixas automáticos com mais de mil pontos de acesso. Isso porque temos uma configuração de ADSL restrito, e não público”, completa a gerente. O interesse da empresa em operações mais complexas não acontece por acaso. Atualmente, a GVT tem 415 mil acessos (usuários finais e pequenas empresas), que respondem por 60% do faturamento. Em contrapartida, outros 85 mil acessos de médias e grandes empresas já somam 40% de seu faturamento.

A Telemar, que oferece o Velox (ADSL) como produto para pequenas corporações, também está focada no mundo IP para grandes empresas. “Com a compra da Pegasus, passamos a ter uma base corporativa muito grande, estamos focados na comunicação de dados de alta velocidade”, afirma Denize Meza, diretora de soluções para empresas da Telemar.

De A a Z

Fornecedores verticalizados, que nasceram com o propósito de atender especificamente ao setor corporativo, não estão dispostas a ficar assistindo à briga de longe. O consenso geral no setor é de que novas fusões ainda estão por acontecer, mas algumas companhias já sinalizam que vão disputar o mercado palmo a palmo.

A Comsat, com 300 clientes corporativos de grande porte, já vem se reciclando e promete disputar cada cliente. Embora sua marca faça referência direta aos serviços via satélite, hoje este corresponde a apenas 40% de seu faturamento. A maior parte da receita, segundo Luiz de Sá, gerente geral da empresa, já está atrelada a serviços como redes IP, frame relay e link internacional. Para concorrer com as gigantes de telecom, Sá utiliza argumentos semelhantes aos de Carlos Augusto Ferreira, da Telefônica Empresas. “A vantagem é que quando você liga para cá, sabe com quem está falando, tem um atendimento personalizado”, comenta.

Questionado se o satélite deve ser uma das principais apostas da Comsat, o executivo destaca também as redes IP e a integração destes canais. Mesmo assim, não deixa de sinalizar características do sistema satelital. “Ele tem a vantagem de ser flexível, uma rede pode ser instalada em um dia. Também há a questão da segurança física, nunca se registra ocorrência de problemas”, diz Sá.

Mais uma que não está se intimidando é a Impsat Brasil, que hoje oferece fibra óptica, satélite e rádio microondas. Célio Fernando Bozola, diretor-presidente da empresa, também aposta na qualidade dos serviços e na agilidade da companhia para competir com as principais operadoras. “Nós nos envolvemos mais com os clientes, ficamos mais próximos de cada projeto. As operadoras perdem nesta situação, porque querem atender de A a Z”, afirma Bozola.

Preço em queda

Não será o custo a principal variável que determinará a escolha do serviço de comunicação de dados. As operadoras em geral prometem que não farão guerrilha de preço, apostando mais na qualidade dos serviços prestados. De qualquer forma, há uma expectativa no mercado de que o custo da alta velocidade caia ainda mais. “No ano passado o preço dos serviços de banda larga caiu em média 15%, e isso deve continuar a acontecer neste ano”, projeta o analista de telecomunicações da IDC, João Bustamante.

Segundo Waldir Morgado, da Brasil Telecom, a queda dos valores vem ocorrendo desde a privatização das telecomunicações, em 1998. “De lá para cá, o preço do Kbit caiu mais de 90%. Custava R$ 12 mil para o acesso de um Mega; hoje este valor é de R$ 900 a R$ 1 mil. Por outro lado, a velocidade dos serviços de banda larga aumentou em 460%”, exemplifica o executivo.

Para Marcelo Moreira, gerente de engenharia da Cisco – que tem 50% de seus negócios baseados na oferta de soluções para o setor de telecomunicações – está claro que haverá ainda mais fusões e redução de preços. O executivo prefere não revelar números, mas reconhece que a participação do setor no faturamento da empresa era maior nos últimos anos.

Por outro lado, a Alcatel, que basicamente atende a Brasil Telecom, Telemar e Telefônica, já começa a visualizar algum reaquecimento no setor. “O investimento este ano está reagindo. Nossos cálculos apontam uma tendência do mercado crescer 50% em relação a 2002”, diz o diretor de desenvolvimento de negócios da divisão de dados da companhia, Celso Caldas.

De olho na última milha

Enquanto operadoras se acotovelam para ganhar espaço no setor corporativo, outros buscam atuar naquele que ainda é um dos principais gargalos das telecomunicações: a última milha, isto é, o trecho que liga o backbone de uma operadora até o servidor dentro do escritório do usuário. No último ano, a companhia de energia British Gas (BG), controladora da Comgás, decidiu entrar na área de telecomunicações com a criação da Iqara Telecom, empresa que passou a utilizar a infra-estrutura de gasodutos de São Paulo para instalar fibra óptica. Atualmente, a empresa conta com 12 operadoras conectadas à sua rede. Para estas, segundo Fernando Mello, presidente da Iqara Telecom, a companhia já vendeu 300 conexões de última milha desde março deste ano. Mello comenta que, atualmente, cem quilômetros da infra-estrutura estão preparados. “Até o final deste ano, toda esta rede será ‘iluminada’”, o que significa estar totalmente preparada para conectar empresas às redes de fibra óptica. Com investimentos de R$ 150 milhões, a Iqara Telecom projeta implementar 200 quilômetros de rede em São Paulo até o final de 2004. A expansão dos serviços, de acordo com o presidente da empresa, está atrelada, principalmente, à disponibilidade da tecnologia Gigabit Ethernet, ainda limitada a poucos clientes (não cita números) devido a um padrão de transmissão de infra-estrutura. “As empresas precisam desenvolver produtos para Gigabit Ethernet, é uma questão de processo. Se analisarem as opções, verão que ele custa apenas um quinto do atual sistema utilizado, que é o STH”, diz Mello. Olhando para o futuro, o executivo não descarta tecnologias como o ADSL no mercado corporativo, mas declara que se trata de uma solução para um “problema antigo”. “Antes achava-se que seria o ATM, mas agora, à medida que se migra para o IP, tudo sinaliza para o Ethernet”, complementa o presidente da Iqara.

Alguns fornecedores e tecnologias oferecidas
Empresa Soluções oferecidas
Brasil Telecom ADSL, Frame Relay, serviços IP e ATM
Comsat Frame Relay, serviços IP, link internacional e satélite
GVT ADSL, Frame Relay, serviços IP, ATM e Fast Ethernet
Impsat Frame Relay, serviços IP, ATM, link internacional e satélite
Iqara Serviços IP e Gigabit Ethernet
Telefônica Empresas ADSL, Frame Relay, serviços IP, x.25 e ATM
Telemar ADSL, Frame Relay e serviços IP

OBS.: esta relação não cita todos os fornecedores de banda larga nem detalha todos os serviços prestados


 

 
 
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