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| Uma dose de Kafka na vida do
pingüim |
| André Machado
- 08/09/2003 |
Um processo judicial kafkiano está deixando o mundo do software
livre em polvorosa. Trata-se da ação que a SCO (antiga Caldera)
está movendo contra a IBM por suposto uso no Linux de linhas de código
Unix que seriam de sua propriedade. A atitude da SCO, outrora uma empresa
de software open-source, e ainda parceria do consórcio United Linux,
foi criticada e considerada uma traição por toda a comunidade
aberta. Não ajudou o fato de a empresa não ter apresentado
as linhas de código em questão, que seriam a prova, nem sua
decisão de enviar faturas cobrando dinheiro de usuários e
empresas que trabalham com Linux.
Para alguns, o processo é uma tática desesperada. O criador
do GNU e presidente da Fundação Software Livre, Richard Stallman, é um
deles.
— Antes de mais nada quero lembrar-lhe que o Linux é apenas
uma parte do sistema operacional (embora uma parte importante, o kernel),
que é basicamente GNU [ e GNU, como bem diz sua sigla, não é Unix,
embora se baseie nele ] — diz. — Tudo o que a SCO está fazendo
combina direitinho com a idéia de que eles estão tentando
assustar as pessoas para que lhes dêem dinheiro. Eles não parecem
ter um caso e ficam dizendo coisas baseadas em argumentos legais que não
se sustentariam por um minuto. O importante é não se deixar
assustar.
Polêmica indicaria tomadas de posição mais
fortes
Já para o advogado Ronaldo Lemos, coordenador de Direito e Tecnologia
da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, a
controvérsia mostra que, no mundo dos direitos autorais, está havendo
tomadas de posição mais claras pró e contra a liberdade
em TI e no ciberespaço.
— Não por acaso, a diretora de Relações Internacionais
do Escritório de Marcas e Patentes dos Estados Unidos, Lois Boland,
vetou recentemente uma reunião da Organização Mundial
de Propriedade Intelectual (OMPI) que discutiria software livre — diz. — O
argumento dela foi um absurdo: o de que a organização não
deveria tratar de software livre porque este nada teria a ver com direitos
autorais... Nada poderia estar mais longe da verdade, pois o free software é,
sim, protegido por direito autoral, só que o autor decide compartilhar
seu conteúdo.
O caso da SCO, segundo ele, está envolto em mitos.
— O primeiro é a alegação de que ela tem copyrights
do Unix, que não é algo único, mas sim uma família
de ambientes operacionais com muitas variantes — aponta. — Depois,
essa tática de guerrilha que adota, ao enviar cobranças a
usuários e empresas, é uma irresponsabilidade e só demonstra
má-fé, pois ainda não se estabeleceu que ela tem direito
a tal. Além disso, o próprio Eric Raymond [ fundador e diretor
da Open Source Initiative ] lembrou em sua análise que por oito longos
anos a SCO foi uma distribuidora de software open-source posto sob a GPL,
portanto liberando qualquer uso posterior. Ou seja, agora ela quer revogar
uma licença que já dera antes.
Pendenga judicial tecnológica pode levar anos
Apesar disso, Ronaldo admite que o processo pode levar anos e — se
a propriedade da SCO for confirmada — afetar a adoção
do software livre em outros países. Discorda disso Jacques Rosenzvaig,
CEO da Conectiva, que, apesar de parceira da SCO no consórcio UnitedLinux,
mantém-se fiel à GPL.
— O processo é de caráter jurídico privado,
contra a IBM e num estado americano [ Utah ]. Uma decisão não
seria aplicada automaticamente no Brasil e nem mesmo em outro estado dos
EUA. Além disso, a versão do kernel que a SCO alega ser de
sua propriedade intelectual foi distribuída sob a GPL. E eles não
apresentaram nenhuma prova! É um absoluto paradoxo ela não
mostrar as linhas de código a pretexto de que a comunidade vá corrigir
o que ela diz que está errado. Segundo recente artigo da “The
Economist”, o próprio CEO da SCO, Darl McBride, que chegou à empresa
há um ano, viu que ela estava decadente em Unix, sem decolar no Linux,
e logo pensou em capitalizar em cima dos direitos que detinha. Isso sem
falar que a empresa agora encara batalhas legais em outros países,
como a Alemanha.
Enquanto a pendenga não se resolve, os “pingüinófilos” botam
o bloco na rua. A IBM e a Red Hat estão processando a SCO e a Electronic
Frontier Foundation inclusive pôs em seu site um manifesto contra
a empresa, em http://action.eff.
org/action/index.asp?step=2& item=2775 .
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