Não venha com chorumelas
03/05/2004 - André Machado - O GLOBO

Carlos Morimoto, o criador do Kurumin Linux como hoje o conhecemos, é um sujeito modesto. Bem que insistimos para que nos enviasse uma foto para a entrevista que nos concedeu por email, mas ele respondeu que preferia ficar anônimo, sugerindo o símbolo de sua criação (o pingüim de cocar, ao lado) como alternativa. Então tá. Ei-lo.

Mas é preciso reconhecer que o homem está ajudando a derrubar o mito “Linux só roda em servidor”. O Kurumin, em seu formato portátil ou turbinado (o Kacique) é o caminho para o usuário final começar a mexer com o GNU/Linux sem medo. E o segredo primeiro é: você pode provar o sistema de forma não-invasiva, rodando bastante coisa direto do leitor de CD-ROM.

A principal reclamação dos usuários de Windows quando se fala em Linux ainda é “a instalação é muito difícil”. Mas é justamente este o primeiro argumento derrubado pelo Kurumin. Tudo o que se precisa fazer é botar o CD no drive, ir ao setup e dar boot por ele. E, se você não quiser se dar esse trabalho, simplesmente abra seu Windows, bote o CD lá dentro, leia o manual (que se abre automaticamente no Internet Explorer) e crie um disquete de boot (Morimoto ensina tudinho). Depois, reinicie o computador com disquete e CD nos devidos lugares e logo aparecerá a tela com as opções de vídeo — 1024 x 768, 800 x 600 e por aí vai. (O sistema ainda oferece “n” opções de comandos fáceis caso o monitor seja um pouco mais velho ou a memória do micro não esteja, digamos, sobrando.) Pronto. Aí o sistema carrega rapidamente.

— Existem várias distribuições atingindo bom nível de facilidade de uso, como o Mandrake e o Lycoris — observa Morimoto. — O Linux inclui drivers para mais dispositivos, e isso permite que quase tudo seja detectado automaticamente durante a instalação. No Windows é preciso ir no site do fabricante de cada placa em busca de um driver atualizado. O Kurumin simplesmente aproveita estes pontos fortes, ao mesmo tempo em que tenta minimizar os pontos fracos, criando uma interface familiar, facilitando a instalação do sistema e de novos programas e incluindo assistentes para as tarefas mais comuns, sem falar da possibilidade de rodar o sistema do CD-ROM, não alterando o que já está instalado no micro. Além disso, você pode rodar o Windows (e qualquer programa para ele) dentro de uma janela, através do VMware, e estou trabalhando para facilitar a instalação de programas através do Wine, que é um programa que permite rodar programas do Windows diretamente no Linux.

Carregada a interface default, o KDE, o usuário tem acesso a vários programinhas. O browser e explorador Konqueror já se abre com FAQ, o manual e outras recomendações. Os softwares são fáceis de mexer: o gMPlayer (para tocar vídeo), o XMMS e o KsCD (para tocar música, em vários formatos), o Kword (para escrever, inclusive arquivos PDF), o Bluefish (para editar HTML), o TuxPaint (equivalente ao Paint, mas com som integrado), Kmail (para email), Gaim (para softwares de mensagens instantâneas)... Os programinhas do KDE são extensamente explicados em <www.kde.org>. Isso se o usuário quiser rodar tudo direto do CD. Instalando o Kurumin no PC, você pode usar os ícones mágicos do sistema para baixar da internet programas maiores, como a suíte OpenOffice.org, toda em português, compatível com formatos de arquivos Windows; o Gimp, para manipular imagens; e o navegador Mozilla, entre outros. Ou então você pode usar o Kokar, como explica Morimoto.

— O Kokar é um CD que contém os arquivos de instalação dos programas que se trazem através dos ícones mágicos — diz. — Ele permite que você instale estes programas adicionais sem precisar baixar tudo da internet. É uma opção útil para quem não tem banda larga, por exemplo. Imagine que você não possua internet em casa, mas tenha acesso rápido no trabalho (onde se permita gravar um CD se você levar a mídia). Pode-se baixar os programas na hora do almoço, gravar o CD e depois instalar em casa. E o Kurumin tem uma função para gerar um CD do Kokar usando os programas que você já instalou. Isso permite que o próprio usuário crie um CD do Kokar com os arquivos de instalação dos programas que prefere usar.


 
‘A idéia é manter o sistema dinâmico’
 
O GLOBO - 03/05/2004




No dia 14 de janeiro de 2003 nasceu o Kurumin portátil, pelas mãos do programador Carlos Morimoto. “Foi mais um esboço que fiz aproveitando a última semana do ano”, contou. Hoje o sistema já está a caminho da versão 3.0 e conta com visual e aplicações cada vez mais afiadas. Aqui, Morimoto fala do universo Kurumin e de que aplicações Linux estão se tornando mais amigáveis, tomando o rumo do PC em casa.
André Machado

Você acha que o esquema do Kurumin é o melhor caminho para o Linux começar a se firmar no desktop?

CARLOS MORIMOTO: O Linux pode ser mais amigável que o Windows em vários pontos, como por exemplo na instalação de programas. A principal diferença é que a maioria dos programas no Linux é aberta, e você pode baixar e instalar o software legalmente, sem custo. No Windows existe uma oferta muito grande de programas, mas os bons títulos são caros, o que faz com que a única solução para a maioria seja piratear. Para complicar, a maioria dos programas gratuitos vêm com spywares, propagandas etc, o que não acontece no Linux.

Que novidades acha importantes na atual versão (2.22)? E o que mais vem por aí?

MORIMOTO: O Kurumin é um trabalho incremental : cada nova versão vem com um certo conjunto de atualizações e novos recursos. Algumas pessoas reclamam que o menu Iniciar tem muitas opções, mas a idéia é justamente que o sistema possa ser útil para o maior número de pessoas, e para isso é necessário incluir muitos recursos. O Kurumin vem com os programas mais usados pré-instalados e você pode instalar outros simplesmente clicando nos ícones mágicos. Algumas funções recentes que acho interessantes são por exemplo o Clica-aki, um painel de controle que facilita acesso às (mais de 500, fui contando quando estava fazendo) funções do sistema; uma melhor compatibilidade com programas do Windows através do Wine; melhor suporte a placas 3D, incluindo drivers para placas de NVidia, Ati, Intel e Voodoo; compatibilidade com vários jogos do Windows (além dos que rodam nativamente) através do WineX; a grande quantidade de programas disponíveis através dos ícones mágicos; e a forma como o sistema está se tornando mais robusto, com menos problemas a cada versão. A próxima grande atualização será o Kurumin 3.0. Ele virá com suporte a mais dispositivos graças a uma atualização do kernel e muitas melhorias espalhadas pelo sistema graças à atualização do KDE. Ele já tem até um corretor ortográfico em português do Brasil incluído no navegador (Konqueror), para quando você posta uma mensagem num blog ou fórum.

O Kurumin está disponível online, no Guia do Hardware <www.guiadohardware.net/ kurumin>. Nunca pensou em botá-lo numa caixinha, para atingir também a galera fora da rede?

MORIMOTO: As caixinhas não são um bom sistema, pois demora muito para chegarem até os canais de distribuição e mais vários meses até serem vendidas. A melhor forma de distribuição no caso do Kurumin é a própria internet, já que você pode baixar sempre a versão mais recente e tirar cópias para os amigos, já que o sistema é livre. Outro canal importante são as revistas: vira e mexe sai alguma edição especial com a última versão do Kurumin. Ao contrário das caixinhas, as revistas têm uma distribuição mais dinâmica, e são feitas para esgotarem antes do fim do mês.

Hoje, quanto tempo você leva entre uma versão e outra, em média?

MORIMOTO: Desde a versão 2.0 eu tenho mantido uma média de uma nova versão a cada mês. A idéia é manter um sistema dinâmico, onde você reporte um problema ou sugere um novo recurso no fórum — e logo saia uma nova versão com tudo corrigido. Um dos motivos de o Kurumin ser pequeno, sempre com menos de 200Mb, é justamente permitir que as pessoas baixem as novas versões sempre que precisarem de alguma correção ou novo recurso.

Vale mais a pena instalar o Kurumin primeiro ou é melhor partir para o Kacique?

MORIMOTO: O Kacique é uma personalização do Kurumin com mais programas pré-instalados. É feito pensando em quem precisa de suporte a Java ou do OpenOffice funcionando diretamente a partir do CD, por exemplo. Os mesmos programas podem ser instalados através dos ícones mágicos depois de instalar o Kurumin no micro — no final o resultado vai ser o mesmo. O Kacique é só uma comodidade.

Que aplicativos open-source você considera top de linha em áreas como office, música, vídeo, jogos...?

MORIMOTO: Todos os programas que vou citar podem ser instalados no Kurumin através dos ícones mágicos, é só clicar no ícone correspondente que um assistente irá baixar, instalar e configurar o programa. Depois que o download é concluído, ele simplesmente aparece feliz e contente na tela, daí o nome “ícones mágicos”. No ramo office, O OpenOffice.org é a melhor opção e concorre diretamente com o Office da Microsoft. Como ele é atualizado mais freqüentemente, recebe correções e melhorias num ritmo muito acelerado. Já está à frente em várias áreas — oferece por exemplo um recurso de salvar qualquer documento como um arquivo PDF, um formato ideal para mandar por e-mail ou publicar na web. Ele tem uma compatibilidade muito boa com os arquivos do Office, tanto para abrir quanto para salvar, e não tem problemas com vírus de macro. Já para imagens, o Gimp é o carro-chefe. Ele concorre com o Photoshop em várias áreas, mas não é uma opção imediata pois tem uma interface bem diferente. Ele não permite que alguém saia do Photoshop e comece de imediato a fazer as mesmas coisas. Mas você pode rodar o próprio Photoshop através do VMware ou do Wine em casos de real necessidade. Para áudio eu gosto muito do Audacity, ele tem alguns recursos interessantes e uma interface muito fácil de usar. Se for só para ouvir MP3 temos o XMMS e o Rhythinbox, ambos muito bons, enquanto para vídeo temos Mplayer, Xine e Kaffeine, todos com seus usuários fiéis. Existem muitos jogos que rodam nativamente no Linux, como o Unreal (2003 e 2004) e toda a série Quake, e muitos que rodam através do WineX, como Counter Strike e Diablo II.

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